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Erro de diagramação grave decidiu eleições americanas que favoreceu o terrorismo

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“O Design Gráfico não precisa ser regulamentado pois não coloca a vida de ninguém em risco.” É o que sempre ouvi falar e até concordava até o último sábado.

Mas calma que não falarei de regulamentação, e sim sobre um erro de diagramação na cédula de votação da Flórida que deu numa guerra que se arrasta há 16 anos.

Guerra essa tão mal travada que tem como grande legado o início do Estado Islâmico e todo o terrorismo que tememos hoje.

As eleições entre Bush e Al Gore em 2000

A disputa pela Casa Branca corria acirradíssima, tanto que logo ficou claro que a minha amada Flórida seria na eleição de ambos candidatos.

Por isso o Voter News Service (que fazia pesquisa de boca de urna) correu às ruas para perguntar aos eleitores em quem haviam votado, e logo ficou claro:

O Democrata Al Gore havia vencido na Flórida, somando 270 colégios eleitorais contra 267 e se tornando o novo dono do mundo presidente do Estados Unidos!

Mas de repente as notícias mudaram e as pesquisas diziam que “a votação estava acirrada demais para determinar o vencedor”. E pouco tempo demais, um novo resultado: o Bush sim era o novo morador da Casa Branca.

Capas do jornal Orlando Sentinel

Já triste e derrotado, Al Gore estava prestes a ligar para Bush quando de repente vem um novo anúncio: a disputa estava apertada demais para saber o vencedor!

Al Gore já estava revigorado, mas aí veio outro balde de água fria que confirmava a vitória de Bush. Se não fosse por um detalhe, é claro:

Bush só tinha 1784 votos de vantagem, o que obriga uma recontagem, de acordo com as leis da Flórida. Recontagem essa que revelou um cenário ainda pior, pois na verdade eram só 900 votos de diferença! Que dodeira!

Um erro de design estava elegendo o novo presidente.

A diagramação da Cédula Borboleta (nome que faz mais sentido do que o designer planejou)

A essa altura, toda a eleição já não fazia mais o menor sentido, especialmente para Al Gore:

A Flórida é um estado que tende mais à esquerda* (= Democratas = Al Gore), e milhares de pessoas confirmaram votar no Al Gore na pesquisa de boca de urna.

Era improvável que as pessoas estivessem mentindo, então o mais lógico é que as contagens mecânicas estivessem bugadas, não é mesmo? Por isso decidiram que era hora de partir para recontagem à mão!

E foi só abrir as urnas que logo descobriram vários problemas na diagramação da cédula borboleta (butterfly ballot), e você vai entender essa zona logo abaixo.

NÃO veja a imagem antes de ler isso:

NÃO veja a imagem antes de ler isso:²

NÃO veja a imagem antes de ler isso:³

A cédula funciona assim: cada retângulo representa um candidato e seu vice, e para votar você só precisa perfurar o círculo equivalente na coluna amarela na direita.

Responda rapidamente: qual número você marcaria para votar no Al Gore?

MILHARES DE ELEITORES SEGURARAM A CÉDULA ASSIM

Se você demorou para responder, você já provou que o design fracassou!

Mas nem precisa opinar, pois graças a essa cédula 4 mil eleitores do Al Gore votaram em Pat Buchanan, e outros 19 mil votaram em 2 candidatos ou mais.

Isso porque, como exposto em O que aprendemos de design com o Super Mario, nossa leitura é feita de cima para baixo em listas, e isso é tão natural que obviamente nem paramos para pensar.

Esquecendo desse princípio básico do design, o criativão diagramou uma cédula de votação em formato de borboleta, que tinha o “corpo” para o voto ao centro, e as “asas” com candidatos em ambos os lados. Veja só:

Note que, embora a lógica diga que Al Gore é a segunda opção, a seta na outra tabela indica que o verdadeiro candidato 2 é Pat Buchanan, logo Al Gore seria o número 3!

Mas como o design obriga que o eleitor fique pulando da esquerda para a direita para saber o número do seu candidato, ele contraria a lógica básica e induz a erros, tipo:

  • Estima-se que 4 mil pessoas dobraram a cédula ao meio para votar em Al Gore, sem nem olhar bem a tabela.
  • Mais de 19 mil eleitores viram que votaram errado e então votaram também no Al Gore (e foram todos anulados, obviamente).

E assim ficou claro que Bush tinha mais votos e se tornaria o novo presidente dos Estados Unidos por 271 colégios eleitorais a 266 de Al Gore. E não, não teve jeito pro candidato agourado (pegou o trocadilho?):

Resumindo a Presidential Election of 2000, forçaram recontagem pra lá e pra cá, até que ficou tão enrolado que a Suprema Corte Americana notificou a violação da 4ª emenda dos Estados Unidos e fixou George W. Bush como vencedor.

E mal sabia o designer da cédula borboleta que ela agora iria causar o pior Efeito Borboleta história!

O Designer criou Bush, e Bush o Estado Islâmico

Muitos especialistas consideram Bush como o pai do Estado Islâmico, e parte disso fica claro nessa citação de Al Gore.

Não que o Al Gore não a faria (afinal, as pressões obrigariam), porém ele não só era contra ao método e timing da guerra, como também a estratégia de ocupação.

Ocupação que levou a operação Red Dawn (Amanhecer Vermelho), que capturou Saddam Hussein em 13 de dezembro de 2003, e eventualmente o levou a morte por enforcamento (o que era motivo de festa e orgia para quem não era vidente).

E assim foi a criação do Estado Islâmico: sem o grande ditador presente, diversos extremistas revoltosos entraram em ação, como Abu Bakr al-Baghdadi que mais tarde criaria o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS).

O triste é que o líder do ISIS até foi preso pelos Estados Unidos, porém com outros jihadistas! O que era para ser uma prisão se tornou uma universidade de terrorismo.

Anos depois Abu Bakr seria solto por ser um “criminoso de baixa periculosidade”, e com o povo forçando Obama a retirar o exército do Oriente Médio, o terreno ficou perfeito para o Estado Islâmico crescer de vez e se tornar o que conhecemos hoje.

E tudo isso começou por causa de um design (ou a falta de)!

Conclusão

 A boa e velha máxima persiste: não basta projetar, é importante testar!

Antes de jogar um projeto no mundo, chame um pessoal (de preferência leigos) e coloque-os para interagir com o seu design. Tivessem feito isso com a butterfly ballot, a democracia teria vencido.

Se bem que ela até que foi testada: a cédula borboleta já tinha dado treta em 1996, mas acreditaram que era só um problema pontual e deixaram pra lá.

E vale destacar que esse post teve que ser alterado por causa de um teste: ele tinha botões para fazer um teste de votação na cédula, e quem leu passou direto sem nem perceber! Ps: e nem era um leigo testando!

Se um mero parágrafo de um blog precisou de teste, imagine um papel que decidirá o futuro de uma nação? Sério, não duvide da burrice humana.

Mas e aí, na sua opinião, o design gráfico coloca vidas em risco ou não? 😛


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